As ruas estavam quietas, era normal nessa época do ano, uma leve brisa soprava por entre casas, brisa esta que carregava consigo o frio que fazia todos aqueles ali presentes procurarem aconchego, tornando assim aquele ambiente o mais agradável que se podia ter.
Uma das casas chamava atenção em meio às outras. Estava ‘quente’.
A família toda estava reunida, todos sorriam, brincavam ou apenas conversavam, já haviam esquecido o motivo pelo qual se reuniram, a alegria passou a se manifestar por estarem um na presença do outro. Crianças corriam, entrando e saindo das portas abertas para a sala, onde dois sofás, ambos um pouco gastos, eram ocupados por adultos sentados que conversavam distraidamente. Mais a frente havia outro cômodo, mais amplo que a sala, a cozinha, com uma mesa larga e comprida em seu centro, capaz de abrigar doze pessoas confortavelmente. Mas não havia cadeiras. Estas estavam fora da casa, a porta que levava a saída da cozinha dirigia a um quintal cimentado onde se encontravam quase todos os presentes, envolvidos em uma sensação que só experimentavam ali, não se preocupavam, não perguntavam o porquê, não pensavam em problemas, nem no que aconteceria quando aquilo acabasse, apenas eram o que eram, sem se importarem com o que deveriam ser, estavam em casa.
Ao lado de uma pequena churrasqueira encontrava-se um homem velho, sorrindo, era o mais sábio de todos que estavam ali presentes.
Alto e imponente, um murinho de quase um metro e meio de altura envolvia a casa, feito de cimento e há muito tempo atrás, era a única proteção que tinham e a melhor proteção que poderiam ter. Este murinho cercava toda a casa, indo, depois de passar por todo quintal, em direção a uma larga sacada, conhecida como ‘área’, lá também havia pessoas. Como não era dividido o espaço do quintal e o da área alguns dos presentes se sentavam sobre o murinho e ali permaneciam.
A área devia ter uns dois metros de largura no seu início e quase três no fim, de comprimento uns dez, nela se localizava a porta que abria para a sala, onde as crianças ainda corriam.
Pouco depois das portas havia duas pessoas que chamavam não atenção, quase camufladas na paisagem, estavam abraçadas. Acomodados nos braços um do outro, protegiam-se. Conversando por sussurros diziam tudo o que precisavam, apenas o necessário. Confortáveis e protegidos, agradeciam ao frio, pois ele os forçara a isso, fazendo-os esquecer de tudo o que acontecia ao seu redor, não precisavam saber como haviam chegado ali nem em quanto tempo sairiam, eles estavam ali, então apenas viviam, na mais sincera demonstração de carinho que o homem pode dar. Não podiam ser alcançados enquanto estivessem abraçados, mas nenhum dos dois achou necessário calcular a intensidade que aquele abraço teria em suas vidas. Até porque ele não teria fim.
-- Até quando você vai ficar ai? – perguntou uma voz conhecida atrás de mim.
A cena se dissolveu, tudo findou, meu primeiro impulso foi o de gritar, mas logo foi sufocado pela consciência que aos poucos se retomava. Me encontrei ajoelhado de frente para ele em um salão amplo, quase vazio, o que o deixava mais amplo ainda, o teto era alto, quase sem fim, mal dava para ver as paredes. Que desperdício. Pensei.
- Você está bem? – perguntou novamente a voz.
- Há quanto tempo estou aqui? – virei. – Parece que acabei de chegar.
- Tenho te procurado há duas semanas. Não sei quando chegou aqui, mas não faz menos que isso.
- Foi mais tempo que a última vez. – disse – Estou regredindo.
- Da última vez eu não tive que te procurar, você veio a mim. Com certeza está regredindo, esqueceu-se de como agir. – Vamos embora, já ficamos aqui tempo demais.
- Tudo bem – me encaminhei para a saída. Dei uma última olhada para trás. Fixando meus olhos nele pude ver uma ultima vez aquele abraço. Voltei meus olhos para o salão ainda vazio. Que desperdício! Pensei novamente. Saí.