Era noite. Fria e úmida como todas as noites deveriam ser. A rua ainda permanecia iluminada pelos postes de luz e pela luz branca da Lua que refletia sobre quase tudo, guiando por um caminho de prata os passos d'Ela sem um destino previamente traçado.
Uma lareira crepitava os últimos vestígios de seus troncos de madeira em uma sala vazia, uma sala realmente aconchegante, com cadeiras bem dispostas em torno do fogo e uma mesa também de madeira que raramente tinha todos os seus seis lugares preenchidos. Dividida por um batente sem porta a cozinha compartilhava uma das paredes da sala vazia, com uma janela grande, um relógio na parede, um fogão sempre limpo e outra mesa, mas essa possuía um de seus lugares ocupados.
Um homem de meia-idade, grisalho, com a barba ligeiramente crescida e expressão severa fumava seu cachimbo curvo enquanto olhava seu chá esfriar em cima da mesa. Ainda fumegava e com certeza o aqueceria. Por enquanto.
A expressão severa dava lugar ao sorriso e a um olhar preocupado, às vezes. Conduzido por seus pensamentos e lembranças fitou a sua xícara de chá por quase duas horas.
Depois desse longo período levantou e esticou os braços para o alto, o relógio na parede já havia marcado meia noite há muito. Quase 120 segundos!
-"É... Acho que está na hora."
Lembrou brevemente de seus irmãos e sua expressão se tornou completamente serena. Bebeu sua xícara de chá já fria e foi em direção ao corredor que o levaria ao andar de cima, subiu silenciosamente os degraus da escada com passos regulares e ao chegar ao topo viu duas portas fechadas. Fez menção de entrar na primeira, mas hesitou. Não. Ainda não. Empurrou a segunda porta com a maior delicadeza e descrição que lhe foi possível e adentrou ao cômodo.
Seu quarto.
Com a cortina aberta a Lua se mostrava majestosa pela janela, banhando a escrivaninha, as estantes e sua cama no mais fino e acolhedor lençol alvo. Andou vagarosamente até sua cama, admirando uma ultima vez cada detalhe daquele aposento, sentou-se ao lado daquela que ali dormia. Sorriu. Sem dúvida era a melhor visão que poderia desejar. Aquela pele branca e macia, os cabelos beijados pelas trevas, mas que sempre conservavam seu brilho, e seus lábios. Poderia ficar dias apenas tomando nota das sutilezas de seus traços, mas os lábios sempre o tinham fascinado de forma inexplicável. Fechou seus olhos e viu com clareza o sorriso que daqueles lábios emanava. Abriu os olhos novamente e percebeu que eram seus os lábios que sorriam, úmidos e salgados. Inclinou a cabeça vagarosamente e beijou-lhe a testa. Queria abraçá-la. Acordá-la e segurá-la tão forte quanto conseguisse. Mas não havia para onde fugir, e já tinha tomado sua decisão.
Fitou mais uma vez seu rosto, deslisando os dedos por seus cabelos, acariciou seu braço descoberto e levantou-se.
Caminhou até a primeira porta novamente e dessa vez não hesitou, entrou e viu uma paisagem parecida com a do quarto anterior, mas agora era uma criança que estava deitada na cama. Completamente vencida pelo sono após um longo dia de brincadeiras. Tinha por volta de doze anos, talvez mais. Mas ainda guardava todas suas qualidades de criança. Tinha cabelos negros também e estes sempre desajeitados. Estava virado para o lado da parede e dormia tão profundamente que seria um crime incomodá-lo.
Sentou-se e contemplou-o por alguns instantes. Sabia que ali estava um futuro grande homem. Teria olhado em seus olhos e desejado boa sorte orgulhosamente caso tivesse a oportunidade. Tirou de seu bolso uma carta escrita há muito tempo e a depositou cuidadosamente sobre a cabeceira da cama e então levantou-se. Despiu sua capa que o acompanhara durante anos e dobrou-a cuidadosamente, deixando-a ao lado da carta. Acariciou os cabelos negros do garoto e levantou-se. Quanto tempo ainda tenho?
No instante seguinte a campainha tocou e trouxe a resposta consigo, aumentando o frio que o acompanhava enquanto saía do quarto voltando-se para a escada para retornar ao nível anterior. Antes de descer voltou novamente para entre as duas portas, olhou dentro de cada uma e quis de alguma forma tirar todo carinho, amor e gratidão que carregava dentro de si. Só para mostrá-los. Para que guardassem tal memória.
A campainha tocou pela segunda vez e soube que já estava atrasado, desceu as escadas e caminhou firmemente em direção a porta de entrada da casa, desviando de todos os objetos em seu caminho.
A campainha tocou pela terceira vez exatamente no momento em que a porta foi aberta, trazendo todo o frio que a noite possuía. E lá estava Ela. Sua velha amiga, impaciente, que vagara pelas noites sem destino por anos a fio. Tinha uma expressão satisfeita e conformada, como quem sorri após ter sido carinhosamente enganada em um truque de mágica, tinha perguntas a fazer e conversas para terminar, mas viu a satisfação e orgulho que mantinham seu lugar no rosto do homem que ainda sorria e nenhum dos dois disse nada, apenas se abraçaram. E caminharam juntos noite adentro.
Um homem de meia-idade, grisalho, com a barba ligeiramente crescida e expressão severa fumava seu cachimbo curvo enquanto olhava seu chá esfriar em cima da mesa. Ainda fumegava e com certeza o aqueceria. Por enquanto.
A expressão severa dava lugar ao sorriso e a um olhar preocupado, às vezes. Conduzido por seus pensamentos e lembranças fitou a sua xícara de chá por quase duas horas.
Depois desse longo período levantou e esticou os braços para o alto, o relógio na parede já havia marcado meia noite há muito. Quase 120 segundos!
-"É... Acho que está na hora."
Lembrou brevemente de seus irmãos e sua expressão se tornou completamente serena. Bebeu sua xícara de chá já fria e foi em direção ao corredor que o levaria ao andar de cima, subiu silenciosamente os degraus da escada com passos regulares e ao chegar ao topo viu duas portas fechadas. Fez menção de entrar na primeira, mas hesitou. Não. Ainda não. Empurrou a segunda porta com a maior delicadeza e descrição que lhe foi possível e adentrou ao cômodo.
Seu quarto.
Com a cortina aberta a Lua se mostrava majestosa pela janela, banhando a escrivaninha, as estantes e sua cama no mais fino e acolhedor lençol alvo. Andou vagarosamente até sua cama, admirando uma ultima vez cada detalhe daquele aposento, sentou-se ao lado daquela que ali dormia. Sorriu. Sem dúvida era a melhor visão que poderia desejar. Aquela pele branca e macia, os cabelos beijados pelas trevas, mas que sempre conservavam seu brilho, e seus lábios. Poderia ficar dias apenas tomando nota das sutilezas de seus traços, mas os lábios sempre o tinham fascinado de forma inexplicável. Fechou seus olhos e viu com clareza o sorriso que daqueles lábios emanava. Abriu os olhos novamente e percebeu que eram seus os lábios que sorriam, úmidos e salgados. Inclinou a cabeça vagarosamente e beijou-lhe a testa. Queria abraçá-la. Acordá-la e segurá-la tão forte quanto conseguisse. Mas não havia para onde fugir, e já tinha tomado sua decisão.
Fitou mais uma vez seu rosto, deslisando os dedos por seus cabelos, acariciou seu braço descoberto e levantou-se.
Caminhou até a primeira porta novamente e dessa vez não hesitou, entrou e viu uma paisagem parecida com a do quarto anterior, mas agora era uma criança que estava deitada na cama. Completamente vencida pelo sono após um longo dia de brincadeiras. Tinha por volta de doze anos, talvez mais. Mas ainda guardava todas suas qualidades de criança. Tinha cabelos negros também e estes sempre desajeitados. Estava virado para o lado da parede e dormia tão profundamente que seria um crime incomodá-lo.
Sentou-se e contemplou-o por alguns instantes. Sabia que ali estava um futuro grande homem. Teria olhado em seus olhos e desejado boa sorte orgulhosamente caso tivesse a oportunidade. Tirou de seu bolso uma carta escrita há muito tempo e a depositou cuidadosamente sobre a cabeceira da cama e então levantou-se. Despiu sua capa que o acompanhara durante anos e dobrou-a cuidadosamente, deixando-a ao lado da carta. Acariciou os cabelos negros do garoto e levantou-se. Quanto tempo ainda tenho?
No instante seguinte a campainha tocou e trouxe a resposta consigo, aumentando o frio que o acompanhava enquanto saía do quarto voltando-se para a escada para retornar ao nível anterior. Antes de descer voltou novamente para entre as duas portas, olhou dentro de cada uma e quis de alguma forma tirar todo carinho, amor e gratidão que carregava dentro de si. Só para mostrá-los. Para que guardassem tal memória.
A campainha tocou pela segunda vez e soube que já estava atrasado, desceu as escadas e caminhou firmemente em direção a porta de entrada da casa, desviando de todos os objetos em seu caminho.
A campainha tocou pela terceira vez exatamente no momento em que a porta foi aberta, trazendo todo o frio que a noite possuía. E lá estava Ela. Sua velha amiga, impaciente, que vagara pelas noites sem destino por anos a fio. Tinha uma expressão satisfeita e conformada, como quem sorri após ter sido carinhosamente enganada em um truque de mágica, tinha perguntas a fazer e conversas para terminar, mas viu a satisfação e orgulho que mantinham seu lugar no rosto do homem que ainda sorria e nenhum dos dois disse nada, apenas se abraçaram. E caminharam juntos noite adentro.

