O dia estava abafado... Cada pedalada parecia fazer escorrer um litro de suor pelo seu rosto.
Não, definitivamente o calor não o agradava... O frio também não o agradava, mas ainda sim era mais bem vindo que o calor...
Um dia diferente dos outros, por pequenos detalhes, é claro, afinal, não é sempre que se tem uma bicicleta para ir almoçar. Mas o almoço era curto, encurtado ainda mais neste dia pelo tempo gasto em uma ótica qualquer (havia quase 11 meses que uma das borrachas fixadas no centro de seus óculos tinha sido 'acidentalmente' jogada fora por seu tio, relembrar a situação o trazia a memória uma velha e forte dor no pescoço que tinha o perturbado naquela semana, mas finalmente tomou providências a respeito e deixou o óculos quando saiu do trabalho e passaria na volta buscá-lo). Saiu de casa 5 minutos mais cedo do que o de costume e pedalou até a ótica, o dinheiro contado nos bolsos para pagar pelos serviços prestados ao seu companheiro de rotina diária.
Pedalou mais rápido, a brisa batia em seu rosto refrescando um pouco sua pele quente pelos raios de Sol, Ah sim... O Sol... Seu homônimo... Passou por um restaurante, uma fábrica, uma bifurcação, por dezenas de pessoas estranhas e chegou uma esquina antes do morro que levava à ótica.
Era ali, que há algum tempo atrás, morara um amigo... Naquela rua, não muito movimentada, em uma casa alta, laranja e com portas balcão que davam para uma varando muito agradável.
- "Porque não?"
Virou e subiu a rua. Havia poucas casas, logo chegou a que queria olhar... Fazia tanto tempo que não a via... Estava exatamente igual... Apenas o cheiro e o barulho cotidiano a haviam abandonado...
Uma pontada fisgou seu peito e sentiu... O que aconteceria se apertasse a campainha? Que aparência teria o novo inquilino? Lembrava claramente de quando podia caminhar pelos corredores daquela casa com boa companhia... A geladeira sempre cheia de coisas desnecessárias, os sofás sempre brancos e sempre precisando ser limpos, o assoalho de madeira escura que riscava mais fácil do que deveria, o quarto vazio, o espaço, os pensamentos... Estava tudo ali...
Não... Ele não está mais ali... Não adianta ficar olhando... Ele não vai voltar... Não assim...
Subiu o morro no fim da rua e deu uma ultima olhada na casa...
- "Meu caro amigo, peço perdão pelo rumo que deixei as coisas tomarem... Tu sabes... Só tu sabes como meus olhos se entristecem quando penso em ti... Se não for pedir muito, volte logo... Agora sou apenas um jovem velho chato e rabugento... Esqueci de como era tentar ser sempre melhor... A vida pouco a pouco me distanciou de minhas memórias e de ti... Se não for tarde, volte... E traga o que esqueci com você..."
Dedicou essas palavras no alto do morro... Não muito confiante... Mas, perdera 6 minutos! Chegaria atrasado.
Pedalou novamente e chegou à ótica. Pagou pelos seus óculos, surpreendentemente achou o serviço muito melhor do que o esperado e digno de uma remuneração maior, não fosse pelas lentes que voltaram cheias de digitais do funcionário que o manuseou.
Pedalou mais uma vez e chegou ao seu trabalho...
- "Opa."
-"I ae..."
Sentou em sua cadeira e ali ficou, até a hora de ir embora... E assim nos dias que se seguiram... Acompanhando as aventuras de pirata determinado ou de um ninja buscando reconhecimento passaria seus dias... Impacientemente...